Vamos acabar com a “nova política”?
Nesta semana, o meio político foi intenso, para usar uma palavra de mais comedimento que possa ilustrar a ebulição dos últimos dias. Ministros do Supremo, isto mesmo, no plural, sendo acusados de se beneficiarem dos cargos, apesar de que ainda estamos só nos instantes de acusações, sem provas cabais de cometimento de crimes. É preciso fazer esta observação, de que mais se falou de situações condenáveis por motivos éticos do que de propriamente criminosas. Também tivemos muitas acusações, aqui e acolá, de, aí sim, de cometimento de atos impróprios conforme a legislação eleitoral e criminal do País envolvendo diversos políticos brasileiros. E nem a imprensa, a chamada grande imprensa, escapa das acusações, por ter alguns jornalistas assumido posturas de defesa de amigos e apontando o dedo para aqueles que não o seriam. Aí, assisto logo pela manhã, nas redes sociais, um vídeo em que uma pessoa lembrava de debates passados há não muitos anos, com FHC, Lula, Brizola, Enéas, Paulo Maluf, Aureliano Chaves e mais alguns. Nos vídeos mostrados, os debatedores divergem, acusam uns aos outros de atos não aconselháveis, mas sempre acabavam os debates e passavam aos “intervalos comerciais” com sorrisos, brincadeiras, com as pessoas se respeitando, sendo amistosas umas com as outras. Algo que colocaria como “digno” de uma disputa política entre pessoas civilizadas. Pessoas de viés totalmente opostos, como Lula e Maluf, se respeitando. E a pessoa, no vídeo a que me referi, também lembrou de situações como a postura de Lula com a morte da esposa de FHC, dona Ruth Cardoso. Lula era presidente da República e decretou luto por três dias, além de publicar nota de pesar pela morte da esposa de seu adversário de eleições passadas. Depois, FHC retribuiu o gesto, com a morte de Marisa Silva, então esposa de Lula.
Aí, veio o jeito extremo de ser, “à la” Steve Banon e Olavo Carvalho, dominando a política brasileira. Vimos o então deputado Bolsonaro desejar a “morte por infarto ou câncer” da então presidenta Dilma, as comemorações de adeptos da extrema direita pela morte do neto de Lula, um menino de 7 anos de idade, e coisas desse tipo. E parece que a política tem piorado, com o comportamento de políticos sendo os mais desprezíveis que se possa imaginar, quando uma doença do adversário é comemorada, em que se mata pessoas por não concordar com o posicionamento político delas. A política piorou as pessoas, ou foram algumas pessoas que pioraram o meio político? Recentemente, tratava disso com o amigo Edno. Nós, que nunca estivemos de um mesmo lado político, até hoje, conseguimos sentar e conversar, sobre política por horas a fio. O mesmo posso dizer, por exemplo, do amigo jornalista Renilton. Penso que nunca estivemos de um mesmo lado político e somos amigos há décadas, trabalhamos juntos. Às vezes, ocupamos espaço nesta mesma página, com opiniões divergentes. Será por que os “novos políticos” não conseguem atingir esta maturidade? E aqui vai uma ironia com o termo muito usado pelos políticos da direita e extrema direita no Brasil: “velha política”. Parece que será necessário que eles aprendam um pouco com essa “velha política” para que possam conviver como pessoas civilizadas? É necessário voltarmos ao tempo em que Ulysses Guimarães, político de “centro”, junto com Tancredo Neves, da “centro-direita”, e Lula, da “esquerda”, subiram ao mesmo palanque para defender a democracia no Brasil contra a ditadura militar. Eram adversários, mas não inimigos. Sentavam à mesa, debatiam e encontravam um ponto em comum para tentar a solução dos problemas.
É preciso colocar um ponto final nesta “nova política”, de imagens e nenhum conteúdo, onde não se debate, não se conversa, mas que se vive de “recortes” para as redes sociais e muita safadeza de bastidores. Se a saída é esta, que retornemos à “velha política”, para nos livrarmos desta “nova política” que sobrevive da enganação, já que não dá ainda para pedirmos atitudes de civismo altruísta, de “cidadãos nórdicos ou escandinavos”, que têm comportamento ético e respeitoso para com a coisa pública, como aqui não se tem visto.
Por Sérgio CunhaJornalista
Profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.





