RELEMBRAR - Uma história que começou há 125 anos
Na próxima quarta-feira, dia 16, Itaúna completa 125 anos de emancipação político-administrativa
Foto: Revista New Toque
“Consta que Augusto Gonçalves, ao se formar médico, em 1888, na colação de grau, teria se negado a beijar a mão de Dom Pedro II. Isso porque o primeiro defendia os ideais republicanos brasileiros, que significavam “defender que a coisa pública (res publica) pertence a todos os cidadãos e que o interesse coletivo deve estar sempre acima de interesses pessoais, familiares ou corporativos”
O atual município, que hoje abriga mais de 104 mil habitantes – segundo o IBGE, Itaúna conta atualmente com 104.002 habitantes –, começou como o vilarejo de Santana de São João Acima, que contava com 5.168 habitantes, conforme os dados históricos. A emancipação aconteceu com a junção de Santana do São João Acima, São Gonçalo do Pará, Carmo do Cajuru e Bicas, que foram desmembrados do Pará (de Minas) e do Itatiaio (Itatiaiuçu), então desmembrado do Bonfim. Essa união apresentava uma população de 20.060 habitantes, segundo dados da época. Depois, foram se separando esses lugares em: São Gonçalo, Carmo do Cajuru, Bicas e Itatiaiuçu, cada um se tornando um município independente. Ficou a Santana de São João Acima, hoje, Itaúna. Essa história foi sendo construída ao longo de 125 anos, que se completam nesta quarta-feira, 16 de setembro.
Itaúna, a então Santana de São João Acima, tem suas particularidades, que, ao longo dos anos, mostram uma formação bastante sólida em princípios. Comecemos, por exemplo, com o enfrentamento de uma crise econômica que assolou o País, em 1891. E foi exatamente naquele ano, no dia 23 de outubro, que nasceu a Santanense Tecidos, empresa que, ao longo de 135 anos, a serem completados em outubro próximo, enfrentou as mais variadas situações, e continua de pé, reerguendo-se como uma ave fênix. A Santanense Tecidos, surgida antes ainda de Itaúna ser emancipada, mantém-se viva, apesar e além das crises. Este é um princípio de resiliência do nosso povo.
Outro fato a se registrar na construção desta história pode ser, por exemplo, a postura de um de seus maiores líderes: Augusto Gonçalves de Souza, que, junto com Josias Nogueira Machado e Senócrit Nogueira, compôs a comissão que levou ao então governador do Estado de Minas Gerais, Silviano Brandão, a proposta de tornar Santana do São João Acima em Vila de Itaúna, em 16/9/1901. Consta que Augusto Gonçalves, ao se formar médico, em 1888, na colação de grau, teria se negado a beijar a mão de Dom Pedro II. Isso porque o primeiro defendia os ideais republicanos brasileiros, que significavam “defender que a coisa pública (res publica) pertence a todos os cidadãos e que o interesse coletivo deve estar sempre acima de interesses pessoais, familiares ou corporativos”. Princípios da coragem e de defesa dos seus ideais.
Afirme-se que, diferente da visão atual, por exemplo, do Partido Republicanos, que pugna pelos valores conservadores e cristãos, em uma pregação do espectro político de direita e extrema-direita, ser republicano, no Brasil, tinha um sentido bem diverso. Baseava-se em alguns princípios fundamentais, que rejeitavam privilégios e o tratamento de exceção; atuava em defesa da lei, garantindo que a lei deveria ser o limite do poder e a garantia da liberdade para todos; entendendo que o Estado administra o dinheiro do contribuinte e que desviar recursos públicos é crime contra toda a sociedade; combatendo o nepotismo, o clientelismo e o uso da máquina pública como extensão de interesses particulares ou partidários. Como se vê, muito diferente do que define o “ser republicano” de dias atuais...
Itaúna nasceu, como se vê, baseada nesses princípios. Nas ideias republicanas de rejeição a privilégios para uns poucos, de combate ao clientelismo, ao nepotismo e, acima de tudo, baseada em ações corajosas. Instalar uma indústria do porte da Santanense, exatamente, quando se vivenciava uma grave crise financeira. Negar-se a beijar a mão do imperador. Ações, gestos de coragem pura, para que a sociedade itaunense se escorasse, para dar seus primeiros passos. E, ao longo dos anos, outros gestos de coragem, de nobreza, de grandiosidade, foram registrados na construção do nosso município.
É preciso destacar ainda que Augusto Gonçalves de Souza se elegeu deputado estadual constituinte, em 1891, com 57.510 votos. Isto mesmo: há 135 anos, ele obteve votação que, quase com certeza, elegeria um deputado estadual por Itaúna nos dias atuais. Aí se vê a sua liderança política e a sua força para atuar pela emancipação de Itaúna. Eis aí o princípio da união, da aglutinação de pessoas em defesa de um sentimento, de um ideal.
Curiosamente, Itaúna poderia ter sido denominada com os seguintes nomes: Burgracia, que foi rechaçado ainda no início; Burgana (burgo, povoado de Ana), Brasilina Minópolis, Floresta, Joanuense, Paranguape, Aroeiras, Cauarinas, Nova América, Serroazul, Iraras, Pitanguape, Ouricury, Nova Minas e Auriverde. Pois bem, prevaleceu a melhor opção: Itaúna. E aí está o princípio do bom senso de um povo, que sabe escolher o melhor caminho. Itaúna, também, como registra a história, pertenceu administrativamente aos municípios de Sabará (1711); Pitangui (1715); Pará de Minas (1748); Pitangui (1850); novamente Pará de Minas (1858); de novo a Pitangui (1872); ainda mais uma vez a Pará de Minas (1874); para se tornar, definitivamente, Itaúna, em 1901. Eis aí o princípio da decisão.
Em dado momento, o município se viu necessitado de constituir uma casa de saúde, e veio a generosidade de Manoel Gonçalves de Souza Moreira, que doou sua fortuna para que aqui se construísse o hospital, administrado pela Casa de Caridade “Manoel Gonçalves de Souza Moreira”. Fez-se valer, então, o princípio da partilha.
E, assim, Itaúna chega aos seus 125 anos de emancipação político-administrativa, calçada em palavras-sentimentos sólidos, e, além de construir uma história de conquistas, molda o caráter de sua gente. Ser itaunense é partilhar, decidir, unir, ser generoso, resiliente, pertencer, mostrar coragem. Por isso, e por muito mais, é preciso comemorar. Viva Itaúna! Vivam os itaunenses!

Foto: Reprodução/@itaunamemorial






