Quem ama cuida: os incômodos de uma rede de afeto diante da homofobia
Para quem acompanha a novela das 21h, não é novidade que Otoniel, personagem vivido por Tony Ramos, avô de Adriana, protagonista da trama, é abertamente homofóbico. Preso aos seus padrões conservadores e às certezas de um tempo que já passou, ele parece viver em um mundo no qual qualquer comportamento que fuja ao que considera masculino deve ser imediatamente corrigido, repreendido ou ridicularizado.
Otoniel também é avô de Maurício, o Mau Mau, jovem que, a cada episódio, vai descobrindo um pouco mais sobre sua própria sexualidade e, nesse processo, convive diariamente com os ataques do avô. Ele é um jovem sensível, simples, filho e neto dedicado. Trabalha na banca de flores para ajudar a família e ajuda a mãe, que sofre de fibromialgia, nos afazeres de casa, participando, inclusive, da preparação dos almoços e jantares.
Mas nenhuma dessas qualidades parece ser suficiente para protegê-lo da violência do avô. Pelo contrário: justamente as características que Otoniel associa ao que considera “feminino” tornam-se motivo para xingamentos, constrangimentos e humilhações. E é aí que começa o meu incômodo.
Não apenas pelas atitudes de Otoniel, que são evidentemente homofóbicas, mas pela ausência de uma reação proporcional das outras pessoas que fazem parte daquela rede de afeto. Não há quem o defenda e interrompa a violência.
É importante fazer essa discussão, pois a televisão aberta ainda ocupa um espaço significativo na vida cotidiana de muitas famílias brasileiras e as novelas continuam sendo capazes de provocar conversas à mesa, no trabalho, nas redes sociais e entre diferentes gerações.
A trama também tem abordado outras questões sociais importantes, como a violência contra a mulher, as dificuldades enfrentadas por pessoas que passaram pelo sistema prisional e o pouco acesso a oportunidades depois do cumprimento da pena, além, ainda, dos vícios em jogos e apostas — discussões muito atuais e relevantes. Há ainda discussões mais sutis, como a hipocrisia de uma elite que, muitas vezes, parece enxergar as pessoas apenas a partir de sua condição financeira.
É necessário olhar com atenção para a forma como a homofobia está sendo apresentada. É possível compreender que Otoniel seja um homem conservador e que tenha sido criado sob valores diferentes dos atuais. É possível, inclusive, que a novela esteja construindo uma trajetória de transformação para o personagem. Mas compreender não é aceitar.
Para aqueles que dirão que Otoniel é “um homem de seu tempo”, fica uma questão: de que tempo estamos falando? Ele vive no mesmo presente que Maurício. Vive em 2026. E já sabemos que masculinidade não tem um único formato e que não há uma única forma de amar. A narrativa deixa evidente que seus atos causam violência. E fico na espera de que haja resistência dentro daquela própria família.
Não podemos naturalizar o silêncio daqueles que assistem à violência e permanecem calados. Causa desconforto assistir às cenas. A homofobia se sustenta quando pessoas próximas escolhem não intervir e pedem que a vítima tenha paciência ou quando o agressor é protegido pela justificativa de que “ele é assim mesmo”.
É por isso que assistir às cenas de Maurício sendo atacado pelo avô, em pleno 2026, é desconfortável e revoltante, mesmo sabendo que a homofobia existe. Esse tipo de violência continua encontrando espaço nas mesas das famílias brasileiras, nas conversas cotidianas e, muitas vezes, no silêncio de quem poderia dizer alguma coisa.
O nome da novela já diz: quem ama, cuida. E cuidar também significa proteger alguém da violência, inclusive, quando ela vem de dentro da própria família. Acredito que a novela esteja preparando uma transformação de Otoniel para os próximos episódios, mas espero também que Maurício não precise suportar a violência para que o avô aprenda.
Por Brígida Gonçalves
Jornalista pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)





