O voto e a tentativa de te enrolar
Vai começar o período eleitoral e, mais uma vez, políticos (ou seriam politiqueiros?) e “marqueteiros de esquina” vão começar com aquela cantilena de eleições em nível estadual e nacional: “Itaúna pode ficar sem representante...”. Na verdade, Itaúna, como os demais 852 municípios que compõem o estado, vai ser representada por 77 deputados estaduais, 53 deputados federais e 3 senadores da República. Isso mesmo. O município não elege um deputado “seu”. Esse negócio de falar “deputado de Itaúna” é embromação, para direcionar votos. O município elege apenas com os seus votos os vereadores e o prefeito. No mais, os votos de cada município ajudam a eleger os deputados, senadores, governador e presidente da República. Ponto.
E como é este negócio de “deputado de Itaúna”? É um argumento que políticos/politiqueiros, profissionais de marketing/marqueteiros de esquina e cabos eleitorais usam para direcionar votos para seus candidatos de interesse. É claro que um deputado nascido na cidade, ou que tenha ligações com ela, tende a valorizar esta relação, direcionando parte das verbas a que tem direito de indicar para a cidade. Também pode trabalhar defendendo os interesses da cidade, mas a verdade é que o deputado tem o dever, a obrigação, de atuar representando todo o estado. Seja ele deputado estadual ou federal. Até porque não se elege para nenhum dos cargos que estarão em disputa nestas eleições somente com os votos de Itaúna. Não? Claro que não.
Mesmo se todos os eleitores de Itaúna escolhessem um único candidato para o cargo de deputado estadual e um único candidato para o cargo de deputado federal, seria muito difícil conseguir elegê-lo sem votos de outras cidades. O total de eleitores de Itaúna é de 70.898 pessoas aptas. Mas 9.722 não são obrigados a votar. Aí entram ainda os brancos e nulos. Vamos ser otimistas e afirmar que 55 mil pessoas votariam e todas elas em um candidato nascido em (ou com estreita ligação com) Itaúna. Ele até pode se eleger, mas vai depender do partido, da coligação, do número de vagas que o partido consiga... Viu que não é coisa fácil? E a situação é a mesma para ambos os cargos de deputados. Aí podem dizer: mas no partido Y se elege com 30 mil votos. E a resposta é: isso é suposição, assim como afirmar que “vou acertar os seis números da Mega-Sena”. Na comparação, apostar que se elege com 10, 20, 30 mil votos é como jogar na loteria. Pode dar certo, mas também pode não dar, com mais probabilidades negativas. Então esse negócio de “deputado de Itaúna” é embromação pura. O máximo que se pode conseguir dando muitos votos a um candidato é que ele direcione a maior parte das verbas a que tiver direito para a cidade. Mas vai depender de que ele cumpra com a sua palavra e realmente direcione esses valores para Itaúna, o que nem sempre ocorre. Se olharmos na história, até mesmo recente, veremos que alguns deputados “de fora” destinaram mais recursos para a cidade do que aqueles que nasceram ou viveram aqui. E tem mais: destinar verba é apenas uma função de deputado. As obrigações deles vão bem além.
Para se ter uma noção, basta avaliar aqueles deputados com ligação com Itaúna e partidários do atual governo que não trouxeram praticamente nenhum benefício para Itaúna. A rodovia que corta a cidade precisa de obras há muito tempo, o viaduto de acesso ao Padre Eustáquio, uma UPA, o combate às enchentes na Jove Soares, enfim, obras necessárias para Itaúna continuam aguardando... até quando não se sabe. O que muitos fazem é destinar verba para asfalto, que dura muito pouco, aliás. E, em relação ao estado, como um todo, é preciso lembrar, por exemplo, que os deputados que daqui levaram votos não atuaram para impedir que o salário dos professores estaduais seja um dos piores da Nação. Ou que o atual governo despejasse R$ 25 bilhões em incentivos a empresas “amigas”, e tantas outras mazelas por que passa Minas Gerais, sem que a maioria dos deputados atuasse para mudar a situação.
Então, quando for escolher em quem votar, não olhe a naturalidade do candidato (cidade onde ele nasceu ou onde ele vive), mas o seu histórico, sua atuação passada. Entenda que deputado se elege é para representar o estado e não uma cidade em particular, e todos os eleitores deste estado. Que função de deputado não é só destinar recursos, é também fiscalizar os atos do poder Executivo, é propor leis que melhorem a qualidade de vida das pessoas, é representar as demandas das comunidades. Minas Gerais vai poder eleger 77 deputados estaduais e 53 deputados federais, além de dois senadores. E vai eleger um governador e ajudar a eleger um presidente da República. As cidades, individualmente, não elegem ninguém, mas apenas ajudam a eleger. Assim, não caia nesta embromação de “deputado de Itaúna”, mas escolha quem melhor representa as suas ideias, as suas propostas. Se for alguém nascido ou com ligação estreita com Itaúna, melhor. Mas isso não deve ser uma obrigação, como algumas pessoas querem impor. E, lembre-se, quem se agarra a esta afirmação de “deputado da cidade” está mentindo para conquistar o seu voto e, se mente agora, não vai ser um bom representante depois. Registre: deputado é representante de Minas Gerais, no nosso caso. Vereador que é representante da cidade.
Por Sérgio Cunha Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.




