Não é adivinhação: veja como funciona uma análise sem torcida

Não é adivinhação: veja como funciona  uma análise sem torcida

Alguns políticos, candidatos insatisfeitos com o resultado de meu estudo recente, colocaram em dúvida a capacidade de uma análise antecipar quantas cadeiras determinada lista partidária poderá conquistar e qual votação delimitará sua última posição competitiva. A dúvida é legítima, mas exige compreender o que uma projeção eleitoral realmente oferece. Uma previsão tecnicamente responsável não promete adivinhar o resultado. Ela estima os resultados mais possíveis, condicionados às informações disponíveis, às regras eleitorais e às premissas explicitadas. 

Essa distinção encontra apoio nas reflexões de Christopher H. Achen e Larry M. Bartels, autores de Democracy for Realists. A obra questiona a chamada “teoria popular da democracia”, segundo a qual eleitores plenamente informados comparariam propostas e escolheriam racionalmente o candidato que melhor representasse suas preferências. Os autores demonstram que identidades sociais, vínculos partidários, pertencimento a grupos e avaliações frequentemente influenciadas por acontecimentos recentes possuem peso considerável no voto. Em suma, o estudo destaca a importância das lealdades e identidades políticas.

Isso não significa que eleições sejam completamente imprevisíveis. A conclusão é outra: como o comportamento individual contém elevada incerteza, uma projeção séria não deve tentar “ler a mente” de cada eleitor. Deve procurar regularidades coletivas, estruturas partidárias, padrões territoriais, trajetórias eleitorais e restrições institucionais. Em outras palavras, o voto de uma pessoa pode surpreender; o comportamento agregado de milhares ou milhões de eleitores tende a apresentar padrões mais estáveis. 

A análise publicada na semana passada combinou duas direções. A primeira, denominada top-down (de cima para baixo), partiu da estimativa de votos válidos, do quociente eleitoral, da força agregada das nominatas e das regras de distribuição das 53 cadeiras de Minas Gerais. A segunda, bottom-up (de baixo para cima), examinou os candidatos: votações anteriores, bases territoriais, mandatos, mudanças de cargo, estrutura política e capacidade de expansão. Quando a soma das projeções individuais não correspondia ao total plausível de uma lista, as premissas eram revistas.

O resultado publicado apontou o PL com 19 ou 20 cadeiras no cenário principal e possibilidade minoritária de alcançar a vigésima. A Federação Brasil da Esperança apareceu com 8 ou 9 vagas; a Federação União Progressista, com 7 a 10; o MDB, com 1 ou 2; e o PSB, com zero ou 1. Não se afirmou que esses números seriam inevitáveis. Foram apresentadas faixas justamente porque alterações na campanha, substituições de candidatos, transferências de apoio, comparecimento eleitoral e oscilações políticas podem modificar o resultado. O mesmo cuidado vale para os chamados “votos de fronteira”. O estudo estimou as faixas de votos.

Esses valores não constituem cortes legais, votos garantidores de eleição ou previsões pessoais para os candidatos de Itaúna. São resultado de uma equação analítica baseada em dados. Representam a votação aproximada do último candidato competitivo dentro de cada lista. 

A confiabilidade do método também pode ser examinada por resultados anteriores. Na eleição municipal de 2024, o estudo indicou previamente 12 dos 17 vereadores eleitos em Itaúna. Projetou exatamente os 2.649 votos obtidos pelo PP. Na rodada de sobras, estimou média de 2.190 votos para o PL, diante de 2.196 efetivamente apurados, e 2.150 para o PSD, que obteve 2.172. Na análise da eleição federal de 2022, a projeção de votos válidos em Minas Gerais ficou a 0,53% do resultado oficial. Houve um político que foi às redes sociais criticando o resultado do estudo, porque minha análise da eleição anterior acertou apenas 70% dos nomes e não 100% de tudo. Paciência. Talvez ele não tenha entendido o que é isso.

Esses antecedentes não provam que uma análise é a prova de falhas. Demonstram, porém, que a metodologia possui capacidade de chegar bem perto dos resultados e pode produzir aproximações úteis. Como a eleição de 2026 ainda não ocorreu, seria intelectualmente incorreto afirmar que a projeção atual já foi confirmada. O que pode ser avaliado agora é sua qualidade antes da eleição: dados verificáveis, hipóteses explícitas, aplicação correta das regras, construção de cenários e disposição para atualizar os números quando as condições mudarem.

A propósito, houve um outro candidato a deputado indignado, da cidade, que chegou a desinformar publicamente, afirmando que a cadeira de deputado federal “só seria ocupada por quem fizesse 20% do quociente eleitoral, estimado em torno de 42 mil votos”. Além de errar (ou propositalmente jogar desinformação para a plateia de seus eleitores), ele se esqueceu de dizer que a eleição proporcional possui diferentes etapas de distribuição das cadeiras. Nas vagas iniciais conquistadas pelo quociente partidário, o artigo 8º da Resolução TSE nº 23.677 estabelece que o candidato precisa obter pelo menos 10% do quociente eleitoral (estimando atualmente em cerca de 21 mil votos) e não 20%. E no final da distribuição, ainda existe a etapa geral das sobras. Nela, todos os partidos, federações e candidatos participam da distribuição das cadeiras restantes pelo critério das maiores médias. Sem sequer ter que atingir percentual mínimo de barreira. Como ele recomendou que os eleitores conferissem a legislação, vou facilitar e deixar aqui os dispositivos que este candidato, pode ele mesmo conferir: artigos 8º, 9º, 10, 11 e 12-A da Resolução TSE nº 23.677/2021, com as alterações das Resoluções nº 23.734/2024 e nº 23.748/2026; artigos 106 a 109 do Código Eleitoral; e julgamento das ADIs nº 7.228, 7.263 e 7.325 pelo Supremo Tribunal Federal.

O ponto de honestidade intelectual mais importante da previsão eleitoral não elimina a incerteza política; organiza essa incerteza. Seu valor não está em prometer certezas, mas em indicar quais resultados são mais plausíveis, onde se encontram as verdadeiras fronteiras e quais condições precisariam mudar para produzir outro desfecho. Como eu disse, a matemática não substitui a política; ela obriga a política a respeitar seus próprios limites.

No decorrer das eleições, com atualizações de dados, voltarei a atualizar as previsões e compartilhá-las. Não é um exercício de torcida. Mas de busca séria pelas indicações mais confiáveis sobre a direção dos resultados.

Por Rafael Corradi Nogueira