Itaúna consegue eleger alguém como deputado(a) em 2026?
A análise histórica das eleições proporcionais em Itaúna sugere que o principal problema do município não tem sido propriamente a incapacidade de gerar votos para candidatos identificados com a cidade. Ao contrário: nas últimas quatro eleições gerais, Itaúna demonstrou repetidamente capacidade de concentrar dezenas de milhares de votos em nomes locais. A questão central parece estar na eficiência com que essa força eleitoral é convertida em representação efetiva na Assembleia Legislativa e, principalmente, na Câmara dos Deputados.
Os dados de 2010, 2014, 2018 e 2022 revelam um primeiro padrão relevante. Considerando os candidatos de base política claramente itaunense, em três das quatro eleições (2014, 2018 e 2022) a quantidade de votos destinada a candidatos locais a deputado estadual foi superior à destinada aos candidatos locais a deputado federal. Em 2010 houve praticamente equilíbrio, com ligeira vantagem para os federais. Em 2014, dois candidatos somaram 35.384 votos dentro de Itaúna para deputado estadual. Em 2022, os candidatos estaduais locais reuniram aproximadamente 28,8 mil votos pelo critério mais restritivo, contra cerca de 23,9 mil para candidatos locais a deputado federal.
Essa diferença permite formular uma hipótese que merece ser investigada ao longo da campanha de 2026: a percepção de viabilidade pode influenciar a decisão do eleitor itaunense. Em outras palavras: o eleitor não gosta de votar em quem acha que não tem chance de ganhar.
O eleitor não necessariamente considera o cargo de deputado estadual mais importante do que o de deputado federal. Aliás, sob determinados aspectos, ocorre o inverso. Um deputado federal dispõe de instrumentos de interlocução com o orçamento da União, ministérios, programas federais e emendas parlamentares capazes de representar volumes consideráveis de recursos para o município. Mesmo assim, historicamente, Itaúna tem concentrado maior quantidade de votos locais na disputa estadual.
É plausível concluir que, nas últimas décadas, o eleitor da cidade tem achado difícil alguém da cidade se eleger para Brasília, mas se acostumou a acreditar que é possível um itaunense ir para a Assembleia, em BH.
Minas Gerais elege 77 deputados estaduais e 53 deputados federais. Além disso, a experiência eleitoral acumulada pela própria cidade pode ter criado uma percepção de que uma votação municipal de 20 mil, 25 mil ou 30 mil votos coloca um candidato estadual em condições reais de disputa, enquanto uma candidatura federal depende, de maneira mais evidente, da construção de uma votação expressiva fora do município. Os números mostram que este cálculo não é bem assim.
Surge, então, uma espécie de viabilidade percebida. O eleitor não avalia apenas de quem gosta ou quem considera preparado. Também pode perguntar, ainda que intuitivamente: “esse candidato realmente tem condições de ser eleito?”. Há um custo psicológico associado à sensação de “perder o voto”, mesmo que tecnicamente o voto em uma eleição proporcional também contribua para o desempenho da legenda ou federação.
O episódio de 2014 ajuda a compreender essa dinâmica e, ao mesmo tempo, os limites das interpretações simplistas. Naquela eleição, Neider Moreira ficou 8.776 votos abaixo da votação nominal do último eleito de sua coligação na chapa de deputado estadual. O grupo político rival de Neider, comandado por Osmando Pereira e Gustavo Mitre, lançou o Toinzinho (Antônio de Miranda) para disputar a mesma vaga de Neider. Os votos dos dois, juntos, poderiam ter eleito algum deputado da cidade. Neste caso, nenhum dos dois conseguiu ir representar o município na Assembleia.
O episódio é um exemplo de que eleições para deputado não podem ser compreendidas apenas pela quantidade absoluta de votos individuais. Importam simultaneamente o desempenho do partido/federação, a concorrência interna, a quantidade de cadeiras conquistadas e a votação construída fora da base municipal.
A questão para 2026, portanto, não deve ser apenas quantos candidatos Itaúna possui nem quantos votos cada um parece ter neste início de campanha. A questão mais relevante é quais candidaturas conseguem combinar preferência eleitoral com viabilidade objetiva e percebida.
Como já sabemos, os dados apontam que, em 2026, para deputado federal por exemplo, se Toinzinho fizesse mais do que o total de votos disponíveis em Itaúna, em torno de 70 mil votos, ainda assim poderia não se eleger entre as 7 a 10 cadeiras que seu partido deve fazer. Desconsiderando o problema judicial que Neider Moreira enfrenta e pode impedi-lo de sequer concorrer, na hipótese de ele participar, seu partido, o PSB, dificilmente fará sequer uma cadeira na Câmara Federal. Se fizer, Neider precisará estatisticamente de mais de 55 mil votos. Por outro lado, o fenômeno Nikolas Ferreira nos mostrou que o PL de Glaúcia Santiago deve fazer 19 ou 20 cadeiras. A faixa de fronteira da última cadeira do partido dela aponta para Glaúcia precisar da menor quantidade de votos entre os concorrentes da cidade: ela deve se eleger se fizer em torno de 29 mil votos.
A campanha de 2026 ainda está em estágio inicial demais para determinar resultados. Mas a história eleitoral permite estabelecer desde já uma hipótese central para acompanhamento: Itaúna sabe produzir votos. O desafio é fazer com que esses votos encontrem uma candidatura capaz de transformá-los em representação. É sob essa perspectiva (concentração, viabilidade, força partidária e capacidade de expansão territorial) que os primeiros movimentos da eleição atual devem ser observados.
Por Rafael Corradi Nogueira







