AILE - Concurso de Contos “Escritor David de Carvalho”

AILE - Concurso de Contos “Escritor David de Carvalho”
Foto: Divulgação

A Comissão Julgadora do primeiro Concurso de Contos da Academia Itaunense de Letras – AILE, “Escritor David de Carvalho”, formada pelos Acadêmicos Maria Lúcia Mendes, Cláudio Lizias Soares e Sérgio Cunha, escolheu, entre os quarenta e um contos recebidos, seis a serem premiados:

- O Bode – Autor: Carlos Alberto Andrade de Castro

- A Última Capa do Diabo – Autor: Pedro Santos de Oliveira

- O Inatingido – Autora: Patrícia Campos Guimarães

Observação: A classificação do 1º, 2º e 3º colocados será anunciada no dia 25/09, quando da entrega dos certificados.

Pela qualidade dos contos apresentados, outros três receberão o “Certificado de Honra ao Mérito”:

- Cachorro-Urubuservante – Autor: Rayi Ramires Tupinambás

- Saudade – Autora: Adrielle Katlin Alves Silva Melo

- A Verdadeira Marlene – Cristina Filgueiras Penido

Todos os seis contistas premiados terão os seus trabalhos publicados na Revista da Academia Itaunense de Letras- AILE.

A solenidade de entrega das premiações será no dia 25/09/2026, às 19:00hs, na Biblioteca “Engenheiro Osmário Soares Nogueira”, situada à Rua Zezé Lima, 176, Praça da Estação.

Leia um dos contos premiados, SAUDADE, da autora Adrielle Katlin Alves Silva Melo:

   Saudade

Por Adrielle Melo

Um dia como outro qualquer. Frio, nublado. Um sol tímido se escondia atrás de nuvens carregadas, prontas para derramar sobre a cidade toda a água daquela imensidão chamada céu.

Levanto-me com dificuldade. Olho para o espelho e encontro um sentimento. Um que não consigo descrever. Preparo-me para viver aquele dia melancólico. Caminho pelas ruas em zigue-zague, como se isso pudesse despistar a névoa invisível que insiste em me acompanhar.

Chego no meu destino, e não sei nem como ele foi o escolhido de hoje, mas peço o sorvete de sempre, me sento em um banco familiar, e dou risada ao ver o mesmo rapaz que sempre está correndo, atrasado, como se sua vida estivesse constantemente a um único respiro de desmoronar.

Enquanto observo o movimento ao meu redor, um cachorro se aproxima. Acaricio sua cabeça imediatamente.

— Neném… há quanto tempo não te vejo. Senti sua falta. – Minha voz falha. Os olhos marejam.

Olho para o lado, onde mãos velhas seguram uma coleira, e me apresso a me afastar de seu cão.

— Me desculpe. Achei que fosse um amigo. Eles se parecem muito. Qual é o nome dele? 

O dono do cachorro me encara com uma expressão impossível de decifrar.

— Saudade.

— Ah… que belo nome. Olá, Saudade. Prazer em conhecê-la – falo confusa, e um leve sorriso surge no canto dos meus lábios.

— É a primeira vez que a recebe tão bem. Normalmente, vejo você a ignorando – diz o homem.

Franzo a testa.

— Não sei onde quer chegar, senhor. Creio que não o conheço.

Ele se senta na outra ponta do banco.

— A saudade tem-na acompanhado desde que perdeu seu bem mais precioso. Você sempre está por aqui, faz o mesmo trajeto, toma o mesmo sabor de sorvete, senta-se no mesmo banco e repara nas mesmas pessoas. Você insiste em fingir que não a vê. Finge que não reconhece o vazio no peito, o peso nos ombros, a falta que sente quando o dia termina. Por isso digo que é a primeira vez que abraça a saudade.

Meu coração aperta.

— Devia aceitá-la, ela sempre andará ao seu lado. É o que acontece quando já se 

vivenciou coisas extraordinárias com alguém. Receba de bom grado — continuou o homem. — Antes que ela transforme em ausência tudo aquilo que ainda existe de bonito em você.

As lágrimas chegam sem pedir licença. Sentimentos alagam meu peito e, sim, a saudade vem junto. 

Como queria andar de mãos dadas, dividir o nosso sabor de sorvete preferido, dispor do outro lado deste banco para que se sentasse ao meu lado, e comentar das pessoas que sempre passam por aqui.

Quando percebo, o senhor já está se levantando.

— Vamos embora, Rick. Você é um cachorrinho muito brincalhão. Mal chegou e já fez uma amiga.

Ergo a cabeça.

— Ei, espera! Tenho que te agradecer, não sei o que aconteceu por aqui, mas o senhor me ajudou.

Ele para por um instante.

— Não tem que me agradecer. Existem coisas que não devem ser explicadas ou 

entendidas, somente sentidas, e vejo que agora você irá sentir, ou pelo menos tentar. – Ele sorri, como quem conhece meus segredos antigos. — Enfim, aproveite o dia! Viu como o céu está lindo?

O céu está lindo.