A variável Nikolas na eleição de deputado em Itaúna
Há 20 anos, quando trabalhava na Câmara dos Deputados, o gabinete em frente ao meu, no quinto andar do anexo IV, era do folclórico Paulo Maluf, eleito por São Paulo. Pouco mais à frente, no mesmo corredor, estava o gabinete de uma deputada do mesmo partido de Maluf. Eleita igualmente pelo PP de SP e, portanto, carregada pelo caminhão de mais de 700.000 votos que o deputado obteve. Se minha memória não falha, o nome dela era Aline Corrêa: entrou na Câmara com cerca de 11.000 votos. Aquela discrepância marcou minha memória. De lá para cá, algumas regras foram ajustadas na legislação. Mas o espírito do efeito real permanece o mesmo.
Não foi a primeira nem a última eleição proporcional para deputado federal em que um puxador de votos carrega tantos outros colegas de partido na mesma chapa e, por consequência, torna muito mais exigente a quantidade de votos mínimos que deputados de outros partidos precisam para conseguirem se eleger. Por isso, numa eleição como a de 2026, em que há expectativa de que Nikolas Ferreira, do PL, bata o recorde de votos para a Câmara, em toda história brasileira, calcular quais deputados de Itaúna possuem mais chance de entrar precisa ir muito além de contar quem terá mais votos. A contagem de todos será influenciada pelo desempenho do jovem político.
Nikolas Ferreira deve ter aproximadamente 2,45 milhões de votos, com uma faixa central plausível de 2,1 a 2,8 milhões. Um julgamento analítico calibrado (e não uma probabilidade produzida por uma pesquisa direta) aponta que ele tem 75%–85% de chances de superar o recorde de 1.843.735 votos, 65%–75% de alcançar 2 milhões, 40%–50%, de obter em 2,5 milhões, 18%–25% de chegar a 3 milhões de votos e 2%–5% de visitar o olimpo de 4 milhões em votação para deputado federal.
Nikolas recebeu 1.492.047 votos em 2022, correspondentes a 13,34% dos votos válidos para deputado federal em Minas Gerais. Foi o candidato mais votado do país naquele pleito e a terceira maior votação absoluta da história da Câmara. O recorde absoluto pertence a Eduardo Bolsonaro: 1.843.735 votos, em São Paulo, em 2018.
Nikolas não precisa dobrar a votação para se tornar o deputado federal mais votado da história do Brasil. Precisa crescer aproximadamente 23,6%. Em números redondos, precisa acrescentar algo perto de 352 mil votos. Para qualquer candidato comum, isso seria uma montanha. Para alguém que já saiu de quase um milhão e meio, passa a ser uma subida politicamente plausível.
Em 2022, Nikolas também concentrou cerca de 62,6% de todos os votos da lista do PL em Minas: foram 1,492 milhão de um total partidário de aproximadamente 2,383 milhões. Ou seja, ele já não era apenas o primeiro colocado da lista; era o componente dominante de sua votação agregada.
Na eleição passada, Nikolas tinha aproximadamente 3,4 milhões de seguidores no Instagram, 1,8 milhão no TikTok e mais de um milhão tanto no X quanto no YouTube. Hoje, uma medição comercial trivial registra aproximadamente 22,06 milhões de seguidores no Instagram e taxa estimada de engajamento de 8,25%.
O número de seguidores dele no Instagram ficou cerca de 6,5 vezes maior do que na eleição de 2022. Entretanto, ele é maior que todo o eleitorado mineiro de 2026, composto por 16.377.659 pessoas, o que prova que a audiência contém pessoas de outros estados, não eleitores, usuários repetidos entre plataformas e possivelmente seguidores estrangeiros. Logo, é metodologicamente errado concluir algo como: seguidores cresceram 6,5 vezes, portanto votos crescerão 6,5 vezes. Se essa regra fosse usada, produziria perto de dez milhões de votos, algo incompatível com o tamanho do eleitorado e com a própria fragmentação da disputa proporcional. O dado digital deve funcionar como evidência de reconhecimento, capacidade de comunicação e mobilização, não como taxa direta de conversão.
Nikolas chega à eleição como incumbente, com mandato, gabinete, exposição legislativa e posições de liderança. Isso acrescenta exposição institucional, recursos organizacionais, estrutura de campanha, rede partidária, capacidade de agenda e maior reconhecimento entre públicos não necessariamente digitais.
Para Itaúna, o efeito é menos psicológico do que matemático. Se Nikolas puxar o PL para um patamar inédito, a cidade precisará olhar seus candidatos a deputado federal dentro da chapa e não apenas na contagem municipal. Um candidato de outro partido pode ter boa votação em Itaúna e ainda assim ficar longe do corte. Outro pode depender menos da cidade e ser beneficiado pela maré partidária. A força de Nikolas muda a régua dos demais partidos e altera a conversa sobre viabilidade de quem busca votos aqui.
Nas eleições municipais de 2024, levantamentos jornalísticos identificaram 68 candidaturas apoiadas publicamente por Nikolas; vinte venceram e 47 foram derrotadas. Ele também perdeu em quatro das cinco capitais nas quais se envolveu mais diretamente no segundo turno. Grande audiência e alto engajamento não produzem transferência automática para terceiros.
É razoável inferir que sua capacidade de converter reconhecimento em voto pessoal seja maior do que sua capacidade de transferi-lo para outro candidato. Mas o resultado de 2024 mostra que não podemos tratar influência digital como poder eleitoral irrestrito.
Eduardo Bolsonaro estabeleceu o recorde de 1,843 milhão em 2018. Enéas Carneiro havia recebido 1,573 milhão em 2002, mas caiu para 386.905 em 2006. Tiririca saiu de aproximadamente 1,35 milhão em 2010 para 1,017 milhão em 2014 e 71.754 em 2022. Esses casos impedem uma suposição simplista de crescimento contínuo: uma votação extraordinária não se reproduz automaticamente.
Nikolas, porém, apresenta uma diferença importante em relação a esses casos: os sinais públicos de alcance, reconhecimento estadual e centralidade política cresceram fortemente depois de 2022, em vez de simplesmente se deteriorarem.
Por isso, a regressão à média deve moderar a projeção. Mas não basta para fazer de 1,492 milhão o cenário central de 2026.
Uso como referência um universo de aproximadamente 11,0 a 11,6 milhões de votos válidos para deputado federal, próximo dos 11,181 milhões de 2022. O ponto central é 11,25 milhões apenas como denominador operacional.
Assim, num cenário preditivo central, 2.450.000 votos é razoável. Isso representaria cerca de 21,8% dos votos válidos para deputado federal. Se esse número se confirmar, Nikolas não será apenas um fenômeno de votação. Será uma variável que reorganiza a eleição federal em Minas e muda a conta de todos que pretendem disputar votos em Itaúna. Se o eleitor pretende eleger algum representante da cidade, é importante ter isso em mente.
Por Rafael Corradi Nogueira







