A imprensa, as notícias e as eleições...
Estamos em plena campanha eleitoral e a pauta da imprensa, especialmente a chamada “grande imprensa”, gira em torno dos acontecimentos políticos. Pode até parecer que existe um trabalho hercúleo dos meus amigos jornalistas, para relatar fatos, noticiar propostas e auxiliar o eleitor no momento de escolher em quem votar. Mas a verdade por detrás das “letras graúdas” das manchetes esconde um trabalho diuturno de tentativa de conduzir o voto do eleitor por parte de quem patrocina os veículos de comunicação. Assim, fatos interessantes são deixados de lado para dar espaço a fofocas, boatos, vazamentos selecionados e sabe-se lá mais o que pode surgir por aí. Um exemplo do que se faz para conduzir o foco para o lado que interessa os patrocinadores da grande mídia são as entrevistas que estão fazendo com candidatos ao cargo de presidente, por exemplo. Entrevistas de quase uma hora, ou até mais, de tempo de televisão gasto com perguntas que giram em torno de fofocas, de ilações, de suspeitas... E não se faz, por exemplo, meia dúzia de perguntas que interessam realmente ao eleitor. Não se busca saber o que propõem os candidatos em relação aos reajustes dos salários, se são a favor ou contra a concessão destes, sobre a questão dos investimentos em saúde... Um dos pontos cruciais do emperramento no serviço de saúde no País, sabe-se bem, é a tabela do SUS – ou seja, o valor que é repassado pela prestação dos serviços. Para se ter uma ideia, a realização de um parto normal custa ao SUS R$ 443,40. Qualquer um sabe que esse é o valor que o médico cobra por uma consulta médica. Mas falar sobre isso pode gerar climas tensos com políticos que constroem carreiras em cima de repasses de verbas para hospitais e casas de saúde e que acabariam, se a Tabela do SUS fosse atualizada, sem o que fazer e perderiam votos e os cargos públicos que detêm anos após anos. O mesmo se vê em relação a áreas como a educação e tantas outras. Então não se fazem as perguntas necessárias e as tais entrevistas giram em torno do vazamento de uma suspeita da PF, de uma gravação e coisas do tipo.
Mas isso não é nada em relação a coisas que a grande imprensa faz para esconder informações ao grande público, para “não beneficiar” certos políticos que eles não apoiam. Um dos exemplos é uma manchete da tarde/noite de quinta-feira, 27, do jornal “Valor Econômico”, veículo de imprensa especializado em economia do Grupo Globo. Há várias semanas, eles, assim como o “Estadão”, a “Folha de SP” e várias grandes emissoras de tevê, vêm dando destaque ao que chamam de “endividamento público” do Brasil. E aí eles denominam o Governo Federal pelo tratamento de “Governo Lula”. Afirmam que a dívida pública cresceu, que é preciso “enxugar o Estado”, sem nunca citar, por exemplo, que o maior valor da citada dívida é gasto com juros bancários pagos a especuladores. Nem explicam o que é “dívida pública”, juntando investimentos em saúde, educação, transporte, geração de empregos, com pagamentos de juros a bancos, como se tudo fosse uma mesma coisa. E é claro que, para o cidadão, investir, por exemplo, no funcionamento do Hospital Regional é muito diferente do que pagar juro a banqueiro. Também não informam que a “dívida pública” de países que eles citam como exemplo, como os Estados Unidos, é muito maior do que a brasileira. Mas, até aí, ainda não é o pior.
Os absurdos são como o citado acima, jornal “Valor Econômico”, que, na tarde/noite de quinta-feira, divulgou a seguinte manchete: “O governo central registrou superávit primário (ou seja, uma espécie de lucro) de R$ 10,783 bilhões em julho”. E que isso afeta diretamente na redução da citada dívida pública. Aí cabe perguntar: quem é esse “governo central”? Ora, ora, é o mesmo Governo Federal que, quando a notícia é negativa, eles denominam “Governo Lula” e, quando é positiva, eles falam que é o “governo central”, assim mesmo com as respectivas letras em maiúsculo e minúsculo. Isso porque eles não querem que o atual presidente seja reeleito? É o que parece quando se faz uma pequena análise dos fatos. Quando a manchete é negativa, o governo é “Lula”; quando é positiva, o governo é “central”. E esse é apenas um exemplo. Para quem se detém um pouco na história, há de saber que a ditadura militar recebeu apoio dessa turma; o Collor, aquele que confiscou a poupança dos brasileiros, também. Também apoiaram a reforma da previdência, que tirou os direitos dos trabalhadores, que agora precisam trabalhar muito mais para se aposentar com muito menos. Lembrando que essa reforma foi aprovada há poucos anos (Emenda Constitucional nº 103 de novembro de 2019). Poderiam, pelo menos, só dar as notícias, sem interpretá-las, manipulá-las, divulgá-las, conforme seus interesses pessoais.
E, para encerrar e não dizerem que não falei nada sobre o voto proporcional, aí vai: deputado bom não é aquele que promete trazer dinheiro, mas é aquele que propõe e vota conforme o interesse do povo...
Por Sérgio Cunha
Jornalista profissional, especialista em comunicação pública e membro da Academia Itaunense de Letras – AILE, sendo titular da cadeira 26.







