A democracia é permissiva, mas a interpretação nem sempre é preponderante
Até a minha adolescência, cresci ouvindo e assistindo que o poder era exercido por aqueles que detinham o controle absoluto, então pregando e impondo maneiras de agir em prol dos pensamentos absolutistas dos que exerciam a condução governamental do país. Com 15 anos, comecei a entender que o poder deveria emanar do povo e não deveria, nunca, partir da caserna, como nas décadas de 60, 70 e 80. Aos 18 anos, comecei a ver que os governantes daquele tempo, além de impor a governança, ainda a exerciam controlando atos e até os pensamentos de um povo, que não tinha, até então, força para lutar contra um regime totalitarista e absolutista, imposto pelos militares, graças aos grupos que tentaram governar de forma fragmentada o país, contribuindo, assim, para que as forças-armadas pudessem impor um regime violento e controlador, enclausurando opositores insurgentes e intelectuais ativos, com seus pensamentos modernistas e considerados imorais para um mundo rodeado de regimes ditatoriais, como o de Stalin, na União Soviética, o de Mussolini, na Itália, e até o de Hitler, na Alemanha, dentre muitos outros, como na antiga Iugoslávia e em outros países, como o Irã do então Xá Reza Pahlevi, no Oriente-médio, dentre muitos outros...
Sempre fui um observador e, mais que isso, um estudioso da política mundial, pois a história sempre me atraiu. E fui, então, buscar entender as diferenças de regimes políticos e o porquê de tanta carnificina para se manter no poder. E quanto mais me inteirava, mais minha indignação aflorava, pois, culturalmente, o poder absolutista imperava, por um único motivo: o povo não sabia se organizar para lutar contra os ditadores que controlavam as riquezas dos territórios e, consecutivamente, os exércitos, ou seja, o povo nunca se rebelaria, pois eles, os mandatários, é quem distribuíam o pão de cada dia.
Cresci com esse estado de coisas acontecendo mundo afora e num país que foi construído por uma dinastia europeia, que buscava riquezas em terras longínquas e apoderava-se de tudo, inclusive, do pensamento do povo colonizado e depois escravizado. E não demorou para que eu percebesse que, para mudar a realidade, só havia um caminho, o da união do povo. Ou seja, para que o velho ditado “o poder emana do povo” se fizesse realidade, uma revolução deveria ser colocada em prática, não armada, mas nas escolas universitárias, nos canteiros de obras e nas militâncias políticas dentro dos sindicatos. Então o brasileiro ativo das décadas de 80 e 90 percebeu que a união dos que militavam nos corredores das universidades com os operários que atuavam nos sindicatos era o que precisava acontecer para que o povo pudesse opinar, escolhendo nas urnas seus representantes nos poderes Legislativo e Executivo. Não vou aqui julgar resultados ou escolhas certas ou erradas, mas faço um registro que funcionou, pois, desde a década de 80, votamos, temos representatividade em todos os poderes, apesar de muitos não concordarem com a formação dos colegiados. Porém uma coisa é fato: o povo tem o direito de escolher democraticamente. E isso é irrevogável.
Mas o fato de poder escolher e de viver sob um regime democrático não é a solução para tudo, tanto é que, por vivermos num regime democrático, acabamos por não conseguir formar uma representatividade coerente nos poderes Legislativo e Executivo. E isso acontece porque o povo não sabe votar. É o que dizem. E penso que é fato. Porém vou e volto ao assunto, e não consegui ainda chegar à uma conclusão, pois, se é o povo que escolhe, a formação passa a ter a sua cara, digamos... E é aí que acabamos por não ter uma representatividade de alto nível exatamente porque escolhemos pessoas com as quais nos identificamos. E isso está errado. Precisamos aprender a escolher os que são capazes, e não os que se parecem com a gente. Mas insistimos em votar naquele que não tem condições de estar nos representando, e alguns exemplos podem ser citados quando analisamos os candidatos registrados para os cargos de presidente, governador, senador e deputados federal e estadual para a próxima eleição de outubro.
Em se tratando de presidência, observo que temos representantes que vêm do povo, caso de Lula; representantes que vêm do empresariado, caso de Zema; e representante que vem ostentando uma herança política, caso de Flávio Bolsonaro, que tem o pai que foi presidente e veio da caserna, ou seja, do Exército, e já mostrou a sua cara no exercício do poder, dentre outros...
Para a Câmara dos Deputados e Assembleia, nós itaunenses, por exemplo, temos vários nomes para escolher, porém poucos têm chances reais de alcançar a vitória. E é exatamente porque hoje temos uma democracia que isso acontece. Mas, também por causa disso, não podemos votar com paixão, e sim com frieza, para poder escolher quem de fato tem chance de eleição e se este que tem chance, tem condições reais de ser um representante à altura do cargo que vai ocupar e se será, de fato, os olhos do povo, seu eleitor, no Poder. Poucos têm.
No caso de Itaúna, entendo que chegou o momento de exercer a cidadania de uma forma consciente para que possamos voltar a ter representatividade em Brasília e em Minas Gerais. É bem como me disse a candidata Gláucia Santiago: “Ninguém conhece Itaúna em Brasília. Então fica difícil conseguir verbas para as obras necessárias em nosso município”. Então é preciso ter alguém lá”. Alguém que possa bater na porta da Presidência da República e dizer que é de Itaúna e que precisa de verbas para melhorar a saúde, para a infraestrutura e para a educação. Ficar de “pires nas mãos”, correndo atrás de deputado de outras cidades, não vai resolver a nossa situação, pois vamos ficar somente com as migalhas.
Se alguns itaunenses que democraticamente colocaram seus nomes para a disputa de vagas na Assembleia e na Câmara dos Deputados não tiveram bom senso para saber que vão prejudicar alguém que poderia de fato ser eleita, cabe-nos informar que, de todos os nomes colocados, apenas um tem chances de eleição para deputada federal, o de Gláucia Santiago. Para estadual, sinceramente, nenhum nome colocado tem chances de eleição. Então cabe a você, eleitor itaunense, optar por ter ou não uma representação em Brasília. E, para isso acontecer, basta agir democraticamente e com consciência, porque voto não paga favor. O voto serve para que possamos mudar rumos e ações que podem perdurar por décadas. Então seja você em frente à urna, e não uma marionete que vai apenas apertar teclas. Afinal, a democracia é permissiva, mas a interpretação nem sempre é preponderante...
Por Renilton Gonçalves Pacheco







